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entre aurora
e poente,
ocaso de um zênite

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"Jovem defendendo-se de Eros" - pintura de Bouguereau (1825–1905)

Um coração e apenas duas iniciais marcadas à unha num bambu cumprido. Parece-me que, quando se ama pela primeira vez, há a necessidade de mostrar o amor latente e ao mesmo tempo escondê-lo. E o paradoxo inscrito torna-se cicatrizado pela planta. Apesar de não ser privilégio dos bambus, os amantes deste parque parecem ver neles alguma preferência. Na sombra vazada do bambuzal, ninguém vê-los escrever. O bambu oco e suas folhas não fazem mais do que seguir o movimento imposto pela brisa da tarde que se estende. Nem ao menos se importam com os amores primários.

 

sombra se move

passeia, se encolhe –

o passar do dia

 

 

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Onde estou não há silêncio. O que chamamos de silêncio aqui é um espírito interno que se alcança, mesmo com roncar das estradas pouco distantes. É o silêncio do fechar dos olhos. Aí, tão pouco, se consegue ouvir as estrelas. Certo, perdeste o senso! Diz-me a mesma voz que revela: não há silêncio onde estás, a menos que percas o senso… e quando recobro o pouco de senso que me resta, volto a ouvir a insistente noite estrelada que medita no horizonte, diante da platéia de janelas insones.

mantra da noite

no silêncio se ouve

grilos e sapos

 

 

 

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Numa cidade costeira, ao sul da Ilha da Grã-Bretanha, Bournemouth, existe um caminho de árvores que não completa uma milha e que leva ao mar. Antigamente era o caminho usado por pescadores e, por isso, o batizaram de Fisherman’s walk. Senti o vento que soprava naquelas folhas quando o pequeno parque fez cem anos. Gostava de recarregar as energias olhando aquelas folhas que me contavam, com fidelidade, qual era a estação que atravessávamos –  coloridas na primavera, verdes no verão, amarelas no outono e peladas no inverno. Eu o via como um lugar místico, por vezes fantasmagórico devido ao vento. De certa forma tão sagrado quanto longe de minha casa.

 

vento na copa

mil folhas brincam

de imitar o mar

 

contra o vendo

todos os cães correm,

donos caminham

 

arbusto se mexe

não é o vendo que brinca,

esquilo se esconde

 

nos bancos vazios

plaquinhas com nomes

de quem já viveu

 

ali de cima

o vento embaça

a vista do horizonte

 

ao norte do Atlântico

as ondas dissolvem-se –

a mil milhas, meu país